A história de Madalena Caninas não começou com grandes planos, treinos estruturados ou material topo de gama. Começou com um fato de banho, uma bicicleta BTT e uma boa dose de ousadia. Em 2008, no Triatlo de Oeiras, estreou-se num super-sprint, empurrada por Carlos Barata e Fernanda Santinha. Madalena encarou a “conclusão da prova como uma grande conquista”. O “bichinho”, como descreve, ficou, e quase 18 anos depois continua bem vivo. A amiga Fernanda, companheira de equipa, já leva duas décadas de triatlo para contar.
Ambas representam o Clube Oriental de Lisboa, colecionam experiências e amigos na modalidade e inspiram novas gerações de mulheres a acreditarem que o triatlo é para todos, independentemente da idade ou do ponto de partida.
Com o humor que a caracteriza, Madalena não esconde o que a trouxe ao triatlo: “Em bom rigor, foi por inveja.” Assistiu ao desafio dos dois amigos e no ano seguinte decidiu acompanhá-los. “Ter amigos com os mesmos objetivos desportivos foi e é, sem dúvida, uma mais-valia na motivação para continuar”. Caminho semelhante foi trilhado por Fernanda Santinha, uma das figuras do pelotão de veteranas da modalidade, que decidiu entrar no triatlo estimulada “pelo gosto pelas modalidades de resistência”.
Quase duas décadas depois, Madalena reflete sobre as dificuldades que as mulheres ainda podem sentir ao chegar. “Sendo uma modalidade com três atividades distintas, material distinto para gerir e transições com regras, poderá criar alguns entraves de início. É muita informação para processar.” Mais do que isso, sublinha a exigência de estar “na rua a correr, andar de bicicleta e ir nadar independentemente da época do ano”, algo que considera, pela sua experiência, “mais constrangedor para as mulheres do que para os homens”. Já Fernanda acredita que grande parte das dificuldades das mulheres na modalidade estão relacionados com o “passado desportivo”.
Madalena e Fernanda testemunharam de perto a evolução da participação das mulheres no triatlo. “No ano em que me iniciei, eu era a segunda mais velha da modalidade. Hoje, passados quase 18 anos, continuo a usufruir desse estatuto”, brinca a veterana. Os números mostram como o triatlo se transformou, passámos de 85 mulheres federadas em 2008, para 610 em 2025. Sobre isto, Fernanda congratula-se com o aumento do número de triatletas veteranas.
Conselhos para quem quer começar
Para as mulheres que acham que “não têm tempo”, Madalena responde com a sabedoria de quem construiu uma vida com o triatlo ao lado: “O tempo acaba por ser aquilo que nós quisermos que ele seja. O foco num determinado objetivo leva a uma gestão mais condizente com esse propósito.” Ainda assim, sublinha a importância de uma boa rede de apoio: “Encontrar um bom grupo de treino é fundamental. Conciliar treinos com outros atletas facilita muito a motivação.” E esta noção do tempo que acaba também por cimentar o caminho que Madalena e Fernanda têm feito na modalidade. “Só é preciso o tempo que cada um tiver. Há muitas formas de estar no triatlo”, explica Fernanda Santinha,
O que torna o triatlo especial?
Questionadas sobre se o triatlo ainda é visto como “coisa de homens de ferro”, Fernanda Santinha prefere explicar que “muitas pessoas ainda não sabem que se pode praticar triatlo de diferentes formas, com diferentes objetivos e níveis de prática”. Claro que tudo isso está relacionado com o próprio contexto da vida, como explica Madalena: ““Alguém com os filhos ‘crescidos’ tem maior facilidade em gerir o tempo livre, e se o parceiro também for praticante, a dinâmica fica muito mais facilitada. Nisso, fui uma sortuda.”.
A Federação de Triatlo de Portugal celebra este encontro de histórias: duas mulheres, formas diferentes de chegar ao triatlo, mas a mesma inspiração. Madalena e Fernanda mostram, juntas, que o triatlo se vive em comunidade, que evolui com o contributo de cada atleta e que há espaço para todas, sempre!




