Aos 20 anos, Rodrigo Pissarra divide os dias entre os treinos de triatlo, o curso de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico e a formação para piloto de aviação civil. Três caminhos exigentes, unidos pela disciplina e capacidade de organização.
Rodrigo Pissarra pratica triatlo desde os nove anos e cumpre atualmente a sua primeira época no escalão de sub-23. Fora do desporto, acabou de completar o segundo ano de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico e, desde janeiro de 2026, frequenta o curso de piloto de aviação civil,
Conciliar estas três áreas obriga-o a planear cuidadosamente cada dia.
“Sem dúvida que organizar três prioridades de grande exigência não é tarefa fácil, mas tento sempre que o meu dia seja planeado ao detalhe para conseguir alinhar tudo o que preciso de fazer. São três mundos completamente diferentes, mas que exigem a mesma base: disciplina e gestão de tempo.”
Nesta fase, Rodrigo ainda se encontra na componente teórica do curso de aviação, em regime pós-laboral, com aulas durante a semana entre as 18h00 e as 21h30. Os treinos mais longos ficam, por isso, reservados para a manhã, enquanto as sessões mais curtas são realizadas ao final da tarde.
“O segredo para mim passa por planear previamente a minha rotina e ver onde posso encaixar tanto os meus treinos como o meu estudo, o meu descanso e o tempo que preciso de ter para mim.”
Preparar uma competição, estudar engenharia e aprender a pilotar exigem diferentes tipos de concentração e compromisso. No triatlo, a disciplina manifesta-se na capacidade de cumprir o plano de treino mesmo perante o cansaço, as condições meteorológicas ou a falta de vontade.
“Preparar uma prova de triatlo exige uma grande disciplina física e mental, com uma determinada preparação específica para cada prova e para alcançar cada objetivo pessoal. Seja pela capacidade de acordar cedo e ir treinar, faça chuva ou faça sol, fazer dois ou três treinos por dia mesmo quando a vontade não é a maior ou quando existe cansaço acumulado.”
Já a engenharia e a aviação representam um desgaste sobretudo mental, obrigando a várias horas de concentração e estudo. Questionado sobre qual das três áreas lhe exige maior disciplina, Rodrigo admite que a resposta não é simples.
“Se tivesse de escolher, diria que a faculdade é a mais exigente a nível de disciplina, uma vez que é o que eu gosto menos de fazer. No entanto, o mais complicado é mesmo a junção dos três e não apenas uma das três.”
Mais do que ocupar uma parte significativa dos seus dias, o triatlo ajuda Rodrigo Pissarra a encontrar a organização e a estabilidade necessárias para enfrentar os restantes desafios.
“O triatlo não é simplesmente um passatempo que me retira tempo; é uma das ferramentas que me dá a estrutura mental para aguentar tudo o resto e ter capacidade de disciplina.”
A necessidade de conjugar natação, ciclismo, corrida, recuperação e vida pessoal ensinou-o, desde cedo, a aproveitar as 24 horas de cada dia. O exercício físico funciona também como uma pausa nos períodos mais intensos de estudo.
“Na engenharia, ajuda muito, uma vez que, quando estou cansado do estudo, posso correr ou nadar, voltando com a cabeça mais limpa e muito mais focada para absorver matéria complexa.”
Rodrigo acredita que as aprendizagens adquiridas no desporto de resistência poderão igualmente ser importantes quando estiver aos comandos de um avião.
“Na aviação, o triatlo vai ajudar na gestão do stress, na tomada de decisão rápida sob fadiga e numa avaliação difícil que pode ocorrer nalgum momento. Eu, como atleta de desportos de resistência, aprendi a gerir a energia ao longo de horas. Tal como nos pilotos, essa capacidade de manter a calma e a lucidez quando se está cansado é vital.”
“Sei exatamente onde quero chegar”
Nos dias mais difíceis, é a visão dos objetivos futuros que o ajuda a manter o compromisso com os treinos e com os estudos.
“Sei exatamente onde quero chegar e que cada dia de esforço é uma oportunidade para conseguir ir atrás dos meus sonhos. Olho para o cansaço não como um obstáculo, mas sim como uma parte inevitável de um caminho nada fácil, que não está ao alcance de todos.”
A sensação de cumprir um objetivo numa prova e o sonho de um dia comandar uma aeronave comercial dão sentido ao esforço diário.
“Quando me lembro do sentimento de cruzar uma meta com um resultado de que posso sair satisfeito ou da sensação que poderá ser comandar uma aeronave comercial, o cansaço físico passa para segundo plano e dá lugar à disciplina que tenho de ter.”
Uma meta que se transforma numa pista
Entre o triatlo e a aviação, Rodrigo Pissarra encontra duas imagens diferentes para representar o futuro: a meta e a pista de descolagem. Para o jovem atleta, porém, uma não existe sem a outra.
“Vejo uma meta que se transforma imediatamente numa pista de descolagem. O triatlo ensinou-me a focar na meta, mas a aviação ensinou-me a olhar para o céu.”
Cruzar a meta de uma competição não representa o final do percurso. Depois de cada prova, há sempre aspetos para analisar, aprendizagens para retirar e novos objetivos para preparar.
“Acabar engenharia e o curso de piloto será uma grande vitória, mas será apenas um ponto de início para o que vem a seguir.”
A engenharia também já influencia a forma como Rodrigo enfrenta as dificuldades, ainda que o atleta reconheça estar numa fase inicial da formação académica. Mais do que conhecimentos técnicos aplicados diretamente ao rendimento, o curso trouxe-lhe uma forma mais racional de analisar os problemas.
“Durante os treinos ou provas, quando as coisas não correm bem, tento não reagir de forma impulsiva e uso uma postura mais calma e racional para analisar o que falhou e tentar corrigir em ocasiões futuras. Neste caso, é uma influência mais ligada à mentalidade do que à técnica propriamente dita.”
Consistência em vez de perfeição
O desejo de alcançar bons resultados em três áreas tão exigentes traz inevitavelmente pressão. Para lidar com ela, Rodrigo procura separar mentalmente cada tarefa e concentrar-se apenas no desafio que tem pela frente naquele momento.
“Se eu estiver num treino a pensar na matéria de engenharia, ou em alguma matéria teórica de aviação ou até mesmo a pensar no treino do dia seguinte, ou vice-versa, acabo por não render em lado nenhum.”
Nos períodos de competições, exames ou avaliações, essa separação torna-se mais difícil. Nesses momentos, o triatleta procura definir prioridades e aceitar que nem sempre será possível atingir o desempenho perfeito em todas as frentes.
“Quando a pressão de querer ter um excelente desempenho nas três frentes se acumula, lembro-me de que não posso ser perfeito e acabo por decidir em qual me foco mais. Não procuro ser impecável todos os dias, procuro ser consistente e dar o meu máximo no que estou a fazer em cada hora do dia.”
Entre piscinas, bicicletas, pistas de corrida, salas de aula e o sonho de chegar ao cockpit, Rodrigo Pissarra continua a construir um percurso assente na mesma ideia: cada meta alcançada é apenas o início de uma nova descolagem.



