Há histórias que se confundem com a própria evolução de uma modalidade. A de Lénia Gamito, com 27 anos de entrega ao triatlo, é uma delas. Começou em 1999, motivada por uma curiosidade despertada numa revista americana feminina e por um espírito aventureiro que não a abandonou mais. Em abril de 2000 alinharia pela primeira vez numa prova, sem fato isotérmico, numa bicicleta de aço, e “completamente feliz e despreocupada”. Era o início de um percurso que ajudaria a abrir caminho para muitas outras mulheres. Hoje, é uma das 610 triatletas federadas em Portugal.
Lénia descobriu o triatlo através da Women’s Sports Fitness, onde lia sobre a modalidade e se inspirava com as histórias de superação. Na altura, já nadava para tirar o curso de nadadora-salvadora, corria desde cedo e pedalava com regularidade, uma combinação que tornou o triatlo uma porta aberta.
“Foi uma aventura pois não tinha noção dos detalhes técnicos nem tinha companhia para treinar, mas o entusiasmo superou todas as dificuldades”, recorda.
Quando começou, aos 19 anos e ainda estudante universitária, Lénia não sentiu bloqueios sociais nem logísticos: “O que queria era participar, com ou sem o material adequado.” Mas, como tantas mulheres, enfrentaria desafios bem maiores noutra etapa da vida: a de mãe e profissional ativa.
A triatleta não hesita em chamar-lhe o “4.º segmento” do triatlo: a gestão do tempo.
“O desafio para uma triatleta, em especial quando se torna mãe, cresce e não é no dia da prova. É no dia-a-dia. Envolve muita logística e gestão emocional.”
E acrescenta algo que muitas ainda hoje reconhecem:
“Infelizmente, a sociedade até recentemente não estava preparada para aceitar uma mãe que se ausentava para ir treinar, tal como aceita um pai atleta.”
A culpa, diz, pode pesar. A compreensão, nem sempre aparece. E o apoio familiar continua a ser um fator decisivo para manter rotinas que exigem tempo, foco e energia.
Ao longo de quase três décadas a competir, Lénia viu a paisagem feminina do triatlo português mudar para muito melhor: A grande mudança foi o aumento do número de atletas estrangeiras a residir em Portugal há cerca de 10 anos, e mais tarde, das camadas mais jovens”, explica a atleta do Louletano.
É esse rejuvenescimento e diversificação que hoje dá nova energia à modalidade e contribui para o crescimento contínuo da presença feminina.
Para todas as mulheres que querem começar mas sentem que “não têm tempo”, Lénia responde com empatia e pragmatismo: “A maior dificuldade é realmente o tempo. Porém, é algo que se contorna com muita organização, vontade e apoio familiar”, detalha. Na verdade, Lénia sabe que as contas finais são muito mais fáceis de fazer, porque “no final da semana, sabermos que nos cuidámos, que demos um exemplo de força, disciplina e amor-próprio aos nossos filhos, é extremamente valioso.”
Porque resistem as mulheres? Mitos, cultura e falta de rede
Apesar dos progressos, Lénia identifica ainda crenças e barreiras culturais à entrada de mulheres na modalidade. Na sua opinião, “ainda existe o mito de que o triatlo é pouco acessível, pela dificuldade técnica ou financeira.” E acrescenta: “As mulheres vivem mais sobrecarregadas com responsabilidades domésticas e familiares, não acreditando ser possível encaixar treinos semanais de três modalidades.”
O exemplo das estradas portuguesas é eloquente para ela: “Em cada 100 homens ciclistas, poderemos verificar uma dezena de mulheres?” A solução passa por criar mais suporte, nas famílias, nos clubes e na sociedade.
A história de Lénia Gamito é mais do que um testemunho longo: é um espelho dos desafios, conquistas e transformações que moldam a participação feminina no triatlo português. É também um lembrete poderoso de que a paixão, a organização e o apoio certo podem derrubar barreiras.



